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I.1.1.5. Primeiros Oceanos 

 

De onde vêm os mares? De onde nascem as inundações? De onde correm os extensos rios?
Tito Lucrécio Caro, De rerum natura, 56 a.C.

 

 

A formação dos primeiros oceanos na Terra foi um processo geológico e astroquímico profundo ligado à evolução do planeta, desde os seus momentos iniciais. A Terra formou-se há aproximadamente 4,56 bilhões de anos a.c. no disco protoplanetário solar. Philip Ball (2021) destaca que a água deve ser entendida como uma substância cosmológica, cuja presença na Terra está ligada à história química do Sistema Solar, e não como um elemento tardio ou acidental. 

Baker (2022) refere-se à criação dos oceanos e ao arrefecimento do planeta, com um tom humorístico, onde podemos ler: 

“A Terra também era constantemente atingida por asteroides, e cada umd os impactos era tao devastador como uma guerra nuclear. Enquanto a Terra continuava a atrair a matéria que percorria a sua órbita, a pressão provocada pela massa de tudo “isso” originava calor no seu núcleo. Em resumo, há 4, 5 mil milhões de anos, a Terra era algo liquefeito e esponjoso. Um pudim gelatinoso e redondo que ardia e borbulhava a milhares de graus.

Giulio Boccaletti, autor de Water: A Biography (2022), proporciona uma perspectiva histórica e antropológica sobre a importância da água para a vida e a civilização humana, embora o foco do seu trabalho não seja a formação inicial dos oceanos, mas sim a relação da água com as sociedades ao longo da história. O seu livro sublinha a centralidade da água como elemento que moldou ecossistemas e desenvolvimento humano, destacando a interdependência entre água, vida e instituições sociais.

Durante as primeiras centenas de milhões de anos, o planeta era dominado por um “oceano de magma” resultado de impactos energéticos, calor radiogênico e diferenciação interna. A atmosfera primitiva, rica em vapor d’água, dióxido de carbono e outros voláteis, foi gradualmente construída por processos de desgaseificação vulcânica.

Apenas com o arrefecimento dessa superfície é que vapor de água liberado por outgassing vulcânico e pela condensação de voláteis pôde começar a formar água líquida estável. 

Esses dados sugerem que a condensação do vapor atmosférico e a formação de oceanos ocorreram apenas 100–200 milhões de anos após a formação da Terra, possivelmente antes do final do Hadeano. Segundo Ball (2021), “os oceanos primitivos reuniram-se assim que o planeta arrefeceu o suficiente para permitir chuvas contínuas”, reforçando a ideia de uma hidrosfera precoce.

 

 

A presença de oceanos líquidos é uma das características mais distintivas da Terra em relação a outros planetas rochosos. “Earth is unique among the rocky planets in the Solar System in that it is the only planet known to have oceans of liquid water on its surface. “

Durante o Arqueano (4,0–3,6 Ga), os oceanos já apresentavam continuidade espacial e desempenhavam um papel fundamental na regulação térmica do planeta, no intemperismo químico e nos ciclos geoquímicos. Boccaletti (2021) interpreta a água como uma força estruturante da história da Terra, argumentando que desde os primeiros mares a água condiciona sistemas complexos — naturais e sociais.


 

A cronologia atualmente aceita indica que os oceanos da Terra se formaram muito cedo na história planetária, possivelmente ainda durante o Hadeano. Essa descoberta redefine modelos clássicos sobre a habitabilidade inicial da Terra e reforça o papel central da água como mediadora entre processos geológicos e biológicos. A integração de dados isotópicos, modelos planetários e abordagens conceituais contemporâneas permite uma compreensão mais robusta da origem da hidrosfera terrestre.

“Earth lost at least one ocean of water early in its history, between the Hadean and Archean eras. “

[...] si el hombre oculta un lago de sangre en el que los pulmones, cuando respira, se dilatan y contraen, el cuerpo terrestre tiene su océano, que crece y decrece cada seis horas, con la respiración del universo.
Leonardo Da Vinci, Cuadernos 

Esses oceanos primitivos forneceram ambientes estáveis para reações prebióticas, facilitando a emergência das primeiras formas de vida conhecidas por volta de 3,8 Ga.

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